
A simplicidade de seus enredos é assustadora,como se pode perceber, resumindo a Paixão segundo G. H., que conta os acontecimentos ocorridos no dia anterior na vida de uma escultora da classe alta, que mora num apartamento e resolve arrumar o quarto da empregada, que ela supõe que seja muito sujo. Ao contrário de sua suposição, o quarto é limpo e claro, mas ela se depara com uma barata dentro do guarda-roupa e a esmaga entre a porta. Segundo a própria autora: “Meus livros felizmente para mim não são superlotados de fatos, e sim da repercussão dos fatos nos indivíduos.”
Portanto, é falando sobre temas banais, ou em situações comuns que Clarice abre um novo universo, muito mais próximo das sensações e dos sentimentos, próximo do que é inominável. Este "instante revelador" é sua matéria prima, assim como o tão almejado insight na psicoterapia.
No trabalho clínico, a obra de Clarice, muitas vezes, foi por mim utilizada como possibilidade de interpretação dos sentimentos de meus pacientes. Chegando até a realização de leituras de alguns trechos, ou a sugestão de livros.
Dentre estas experiências, uma foi mais significativa. Uma paciente de meia idade, que havia acabado de sair de um casamento com mais e 20 anos, no qual ela estava sendo ameaçada de morte pelo marido, conta-me que acha horrível sentir falta daquilo que não é mais necessário e que a mantinha paralisada. E no encontro seguinte, ela entrega-me algumas páginas manuscritas, das quais reproduzirei alguns trechos: “Acredito que estou buscando, mas ao mesmo tempo espero que venha. É isto, estou me dando o deleite de esperar por mim. (...) Vou me observar da mesma forma que se observa um recém-nascido. (...) Tanta coisa para fazer e eu quero mesmo é me sentir.” (sic)
E para este mesmo encontro eu havia reservado uma frase do livro Paixão segundo G.H., que era:
“Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.”
O olhar de espanto foi imediato. Ela se virou e disse: “Como é possível. Ela me conhece. Como uma pessoa pode falar tão precisamente de mim assim.” E penso que é justamente este espanto que a obra de Clarice Lispector tem o poder de gerar. A leitura de seus livros é lenta, pois não permite que o leitor permaneça imune às suas falas, aos seus apelos e às suas viagens para dentro de si mesmo, ou fora, ou tudo.
Portanto, é falando sobre temas banais, ou em situações comuns que Clarice abre um novo universo, muito mais próximo das sensações e dos sentimentos, próximo do que é inominável. Este "instante revelador" é sua matéria prima, assim como o tão almejado insight na psicoterapia.
No trabalho clínico, a obra de Clarice, muitas vezes, foi por mim utilizada como possibilidade de interpretação dos sentimentos de meus pacientes. Chegando até a realização de leituras de alguns trechos, ou a sugestão de livros.
Dentre estas experiências, uma foi mais significativa. Uma paciente de meia idade, que havia acabado de sair de um casamento com mais e 20 anos, no qual ela estava sendo ameaçada de morte pelo marido, conta-me que acha horrível sentir falta daquilo que não é mais necessário e que a mantinha paralisada. E no encontro seguinte, ela entrega-me algumas páginas manuscritas, das quais reproduzirei alguns trechos: “Acredito que estou buscando, mas ao mesmo tempo espero que venha. É isto, estou me dando o deleite de esperar por mim. (...) Vou me observar da mesma forma que se observa um recém-nascido. (...) Tanta coisa para fazer e eu quero mesmo é me sentir.” (sic)
E para este mesmo encontro eu havia reservado uma frase do livro Paixão segundo G.H., que era:
“Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.”
O olhar de espanto foi imediato. Ela se virou e disse: “Como é possível. Ela me conhece. Como uma pessoa pode falar tão precisamente de mim assim.” E penso que é justamente este espanto que a obra de Clarice Lispector tem o poder de gerar. A leitura de seus livros é lenta, pois não permite que o leitor permaneça imune às suas falas, aos seus apelos e às suas viagens para dentro de si mesmo, ou fora, ou tudo.
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