Psicologia, Educação, Arte e Cotidiano


09 Abril, 2009

O telespectador




Conto extraído do livro Treze contos Diabólicos e Um Angélico, de Frei Betto, p. 111-117. Ed. Planeta.

“Após uma existência de devassidão e indiferença, Viriato viu-se nas profundas do Inferno. Não se assombrou. A vida que levara, os pecados cometidos, os valores ignorados, já lhe haviam imprimido a convicção de que não mereceria, no encontro com a morte, o Céu e nem mesmo o Purgatório.
Inquietava-lhe, porém, conhecer o tipo de castigo que deveria suportar por toda a eternidade. Em países em que vigoram a pena capital o crime nem por isso reflui. Aos condenados resta sempre a dúvida de como serão executados. Não é a morte que os assusta. É o modo como ela virá, na forma de uma descarga elétrica ou de uma injeção letal, a forca ou a guilhotina, o fuzilamento ou a empalação. O mesmo intrigava Viriato, curioso quanto ao modo como Asmodeu haveria de tratá-lo.
A primeira surpresa foi constatar que o Inferno era muito diferente do que imaginara. Isso sucede com os viajantes. Ansiosos por chegarem no porto almejado, nutrem a imaginação de múltiplas fantasias, criando na mente uma quimera bem distante da realidade. Assim como quem visita Veneza sem imaginar que a beleza daquela cidade flutuante às margens do Adriático é entrecortada de canais cujas águas cheiram a podridão, ou Manhattan, onde as sirenes de ambulâncias, bombeiros e carros de polícia impedem o sono tranqüilo.
Viriato viu-se condenado à solidão. Nada de multidão de almas penadas, de caldeirões ferventes atulhados de hereges, de tridentes atravessados em quem transgrediu as leis dos homens e de Deus. Talvez tudo isso exista em alguma esfera da transcendência, até mesmo a fornalha ardente onde corpos lambidos pela chama queimem sem se consumir, mas não lhe tocaram nenhum desses castigos que vira em brochuras catequéticas. Ele estava só, conduzido pelo Pé-Cascudo através de imensos corredores cujas paredes entrecortavam-se de portas. Tudo se assemelhava a um hospital, tamanha a brancura e a limpeza do edifício.
Após longa caminhada, o Rabudo abriu uma das portas e convidou-o a entrar. Era um quarto de tamanho razoável, todo pintado de branco, mobiliado com apenas duas peças: uma cadeira e, à sua frente, um televisor. Viriato teve vontade de rir. Tudo aquilo lhe parecia infinitamente melhor do que esperava.
- Funciona? – indagou de olhos no aparelho.
- Funciona – respondeu o Cafuçu. – E capta todos os canais de entretenimento. Fique à vontade – disse o hospedeiro ligando o televisor.
Entregou-lhe o controle remoto e convidou-o a sentar. Acrescentou o Coisa-Ruim que Viriato não se preocupasse com a falta de banheiro e cama. Por toda a eternidade ele jamais precisaria ingerir nutriente e expelir excessos, nem seria acometido pela fome e pelo sono, e sua únicaocupação seria a TV.
Tão logo Viriato acomodou-se na cadeira, resignado à boa sorte, o Arrenegado retirou-se, batendo a porta. O falecido reparou, então, que não havia trinco nem fechadura pelo lado de dentro. Quis levantar-se para examinar um jeito de abri-la e deu-se conta de que seu corpo e a cadeira formavam, agora, uma só peça. Suspirou sem conseguir fechar os olhos. Suas pálpebras se recusavam a obedecer-lhe. Descobriu ainda que poderia mudar de um canal a outro, mas jamais desligar o aparelho e reduzir o volume do som. A TV o olhava continuamente, ad aeternum. Enfim, estava condenado a ficar com os olhos pregados no televisor por toda a eternidade.
Não julgou cruel a sua pena. Afinal, escapara do fogo eterno e da chatice de companhias indesejadas. E tinha a seu dispor uma variada programação televisiva.
Nas primeiras semanas Viriato chegou a achar graça da falta de imaginação do Tisnado. Que diabo de castigo era aquele que lhe propiciava um atrativo cardápio de variedades? Havia o inconveniente de não poder desligar o aparelho nem fixá-lo numa emissora que estivesse fora do ar. As imagens estavam sempre ali, à vista, e os olhos e a mente não podiam ignorá-las, assim como os movimentos de Viriato eram todos observados pela TV.
Foi ao fim de três meses que Viriato começou a perceber que a sua pena não era tão leve quanto pensara. Sua imaginação refluía. A TV não era uma mera transmissora de atrativos. Tratava-se de um ente real que imaginava por ele, pensava por ele, sonhava por ele, raciocinava por ele, seqüestrando-lhe a identidade. Um vazio instalara-se no âmago de seu ser. Ele estava hipnotizado pelo aparelho e o fluxo de imagens impregnava-lhe os olhos, a mente, o cérebro, as entranhas, descosturando-lhe a subjetividade.
A sucessão infinita de clipes publicitários corroía-lhe a alma. Viriato tinha ânsias de consumo e, no entanto, estava impedido de acesso ao mercado. E o seu desejo desenrolava-se como um fio infinito. Seria menos doloroso se a sua auto-estima não estivesse sendo minada dia a dia. Não possuir aqueles produtos que conferiam valor a seus proprietários acarretava-lhe um sofrimento que lhe parecia sempre mais insuportável. Sentia-se um faminto diante de farto banquete, mas com a boca irremediavelmente costurada.
A programação saturava-o. embora variada, obedecia aos mesmos modelos repetitivos: o sorriso saúde-e-afeição dos apresentadores, a beleza esguia das mulheres, a ridicularização dos homossexuais e dos gordos, a apologia do adultério, a comicidade derivada da desgraça alheia, a prosperidade como fruto da sorte, a espetacularização da notícia, a nova embalagem de velhas piadas, velhas histórias e velhas imagens.
Viriato entendeu o significado da eternidade: a televisão suprimia o tempo, já não havia passado, presente e futuro, e instalava a soberania do espaço, majestosamente ocupado por ela, não só no espaço das horas e dos dias, das fantasias e das idéias, mas também no espaço subjetivo do telespectador, asfixiado por aquela profusão de signos que lhe roubavam a palavra e sonegavam o silêncio, dilacerando-o interiormente.
Viriato não podia se ausentar, fugir daquele aluvião no qual se afogava sem perecer. A sucessão de anúncios incutia-lhe irremediável indigência, a infinidade de cores acinzentava-lhe o espírito, a velocidade fluida dos programas mergulhava-o numa vertigem irrefreável. Era pior que o fogo capaz de queimar sem consumir, pois todo ele era sugado indefinidamente, e a dor não era na carne, era no espírito, absorvido por aquele aparelho que o monitorava, transportando-o a um mundo virtual que escravizava o seu ser dominado pelas correntes invisíveis da sedução.
Viriato sofria por não poder fechar os olhos diante do televisor que, incansável, jamais cerrava o olhar nem silenciava a fala, onipresente e onisciente, reduzindo-o a um exíguo e imponderável espaço que não admitia diálogo, contestação, objeção ou resposta. O império imagético oprimia-o por toda a eternidade, esmagando-o sem destruí-lo na viscosidade daquela teia cuja aranha o prendia sem devorá-lo.
O demônio modernizara-se."

1 comentários:

Anníbal Montaldi disse...

"o sorriso saúde-e-afeição dos apresentadores, a beleza esguia das mulheres, a ridicularização dos homossexuais e dos gordos, a apologia do adultério, a comicidade derivada da desgraça alheia, a prosperidade como fruto da sorte, a espetacularização da notícia, a nova embalagem de velhas piadas, velhas histórias e velhas imagens."

Qual foi o meu espanto ao ler tamanha precisão e destreza na descrição do entretenimento que valorizamos, se em algum desses pontos há rejeição, em outros hão atrativos...
Primoroso texto!
Um beijo.